Em 17 de abril, na Alemanha, as pessoas recém-infetadas eram cerca de 3000. A declaração do Ministro da Saúde da Alemanha foi: “Agora, temos tudo sob controle”.
Como escrevi no Blog um: as políticas de saúde não visam a saúde de indivíduos, mas a garantia da soberania do estado sobre as pessoas que tratam as pessoas como um serviço para o estado e a economia – os economistas chamam a isso capital humano – e que isso, cuidar desse capital humano como um todo, implica calcular todas as pessoas doentes e mortas; e que isso, contar as pessoas doentes e mortas, é um meio para uma política de saúde que garanta uma população saudável.
Essa é a política de saúde que, no caso deste vírus, promove a disseminação controlada do vírus, a fim de construir uma sociedade nacional imune.
Geralmente, isso, assegurar uma população saudável, é feito com a ajuda de medicamentos, como no caso da gripe; vacina que também calcula anualmente as várias pessoas doentes e mortas. Neste caso do vírus Corona, não existe esse medicamento; no entanto, a estratégia da mesma política de saúde visa a mesma população saudável e opera, devido à falta de medicamento neste caso, por meios diferentes. E esses meios refletem, em última instância, o que essa política de saúde significa para as pessoas, os clientes dessas políticas de saúde.
Nada expressa melhor isso do que a palavra alemã “Durchseuchung”, usada entre os especialistas em pandemia. Refere-se a como as políticas de assistência médica visando uma população saudável funcionam, quando não há remédio. (Não existe uma palavra em português para “Durchseuchung”; tem um sentido particular na língua alemã: o significado é um conceito de saúde como a disseminação ativa de uma doença infeciosa como uma estratégia para criar uma população imune (nota de tradução: imunidade comunitária é próximo do mesmo significado). Durchseuchung é o nome de uma política de assistência médica contra esse vírus que usa as capacidades dos seres humanos infetados para criar anticorpos, por estarem infetados, e que usa essa capacidade de criar anticorpos como substituto do medicamento em falta, como forma de orientar o número de pessoas infetadas e mortas em relação a uma população imune, o que de outro modo seria feito com uma vacina. A arte de Durchseuchung é controlar a propagação do vírus com a ajuda de instalações médicas para criar uma população imune com a ajuda da infeção pelo vírus. As pessoas infetadas com o vírus tornam-se o meio médico para criar imunidade, pois as pessoas infetadas substituem o medicamento inexistente para criar uma população saudável. Isso funciona através do equilibrar da percentagem de pessoas infetadas que não exceda o número de pessoas infetadas para as quais o sistema de saúde pode responder, com o objetivo de deixá-las curadas, ou seja, pessoas imunes. Isso significa que são as pessoas doentes que criam, passo a passo, através deste processo medicação supervisionada de Durchseuchung, uma população nacional imune, cuidadosamente documentada pela contagem de a) pessoas infetadas, b) curadas e c) mortas, tudo isso supervisionado estatisticamente pela observação da taxa a que a população se torna durchseucht com sucesso.
Portanto, para esta supervisão de uma Durchseuchung bem-sucedida e para recolher informações sobre a que nível o vírus já infetou as pessoas, para medir isso, não é necessário testar todas as pessoas para saber quem está doente e quem precisa de tratamentos médicos. As pessoas doentes, nunca detetadas ou tratadas pelo sistema de saúde, fazem parte dessa propagação controlada do vírus e, portanto, é suficiente testar algumas pessoas, conforme seja necessário para constituir uma amostra estatística que permita ser considerada suficiente para avaliar o grau de Durchseuchung na população como um todo. O efeito dessa estratégia, a existência de um número desconhecido e não testado de pessoas infetadas, é um instrumento previsto por esta Durchseuchungsagenda (agenda de Durchseuchung), pois esses infetados ajudam a espalhar a vírus e, assim, a criar uma crescente população imune. Como já foi dito, a estratégia dessa disseminação controlada de vírus procura tão só proteger as pessoas contra o vírus. A disseminação do vírus e a inclusão dessas pessoas infetantes na população fazem parte dessa estratégia da Durchseuchung.
Dizer que não há capacidades suficientes para testar mais pessoas, essa é a mentira a que recorre a política de saúde de um Durchseuchung. Uma mentira que finge que a política de saúde visa evitar infetar pessoas, quando é com elas que essa estratégia de Durchseuchung conta. Justifica que não é a sua intenção evitar ao máximo as pessoas infetadas, porque elas contam com pessoas infetadas, pessoas desconhecidas e não testadas, para essa disseminação controlada do vírus. O exemplo da Áustria, onde apenas agora decidiram testar todas as pessoas em lares de idosos, mostra que a disseminação do vírus e a criação de pessoas infetadas é a essência da estratégia de Durchseuchung. Evitar que as pessoas sejam infetadas pelo vírus não é a estratégia. São as pessoas infetadas que fazem a infeção de pessoas necessária para a criação de uma população imune. Se, e onde, essa disseminação controlada do vírus mata muitas pessoas, tomam-se medidas para evitar infeções de grupos específicos, como no caso da Áustria. Isso mostra que é óbvio que essa estratégia de Durchseuchung opera com pessoas mortas e infetadas. A infeção controlada do povo com o vírus, por aqueles que não são testados nem conhecidos, é o remédio do sistema de saúde nessa política de guerra do estado contra o vírus. Para essa infeção controlada de pessoas, a vida das pessoas é ajustada a essa disseminação controlada do vírus e, para isso, todas essas medidas políticas que regem as prioridades de vida das pessoas fazem parte dessa disseminação controlada do vírus, que transmite essa infeção controlada das pessoas para criar uma crescente população imunizada, isto é, supervisionada pelas estatísticas que acompanham o número de pessoas infetadas, curadas e mortas. É por isso que, ao usar a infeção controlada de pessoas para criar uma população imune, esse Durchseuchung de uma população é, de alguma maneira, equiparado a uma guerra: implica a infeção controlada de pessoas com o vírus, controlada pelos serviços de saúde e pela política, através de regulação de restrições que regem a vida dos cidadãos para os fins dessa guerra.
Há variações nos modos de organizar essa guerra, a guerra da propagação controlada do vírus por toda a população, no sentido de criar, por meio desta, uma sociedade com imunidade crescente. Existem países que aplicam propositadamente diferentes escalas de restrições, maneiras diferentes de testar pessoas e formas de contar as pessoas infetadas e maneiras diferentes de tratá-las nos hospitais, quando necessário. Alguns países não forçam as pessoas a ficar em casa, etc., e permitem que elas façam a sua vida normal. O Japão e a Suécia são casos desses, uma estratégia menos restritiva da vida normal das pessoas. Tentaram uma variação dessa estratégia de “Durchseuchung” uma população. Procuram outro tipo de equilíbrio entre a disseminação controlada de infeções por vírus e os prejuízos económicos. Esperam que deixar mais ou menos as condições normais de vida também possa espalhar o vírus com as pessoas infetadas. Com essas pessoas infetadas produzem a população imune. Esperam que essa maneira de espalhar o vírus sem restrições não excederá o número de pessoas infetadas com que o sistema de saúde poderá lidar com as pessoas infetadas que precisam de ajuda médica; que a economia nacional poderá digerir melhor essas pessoas infetadas do que fechando grande parte da economia, tendo em conta os prejuízos económicos que esse fecho criaria para o futuro. O Reino Unido, por exemplo, tentou não impor restrições. Deixou o vírus espalhar-se para criar, dessa maneira radical, pessoas infetadas e uma população imune. Deu prioridade à administração dos negócios, mas depois mudou para as políticas de Durchseuchung. Teve que fazer como outros países fizeram, e encontrar uma maneira diferente de equilibrar as infeções e os danos económicos, planeando primeiro uma fase de produção de infeções mais controlada das pessoas, para concretizar a estratégia de Durchseuchungs acima descrita. Para isso, fechou partes da economia e procurou alcançar o equilíbrio certo entre pessoas infetadas e imunes na população. Os critérios e os objetivos são, em todos os casos, de estratégias iguais.
Os médicos executam essa agenda. Fazem isso como o sistema de saúde e os médicos sempre trabalham, em circunstâncias normais. As equipes médicas, médicos à frente, tratam sempre as pessoas de uma maneira que lhes permita voltar à vida normal e ao trabalho. Levantar a questão de saber porque é que os pacientes tendem a voltar com grande frequência com as mesmas doenças, doenças sobre as quais é conhecida a causa, não é problema que os médicos considerem ser da sua responsabilidade. A missão dos serviços médicos é fornecer pessoas saudáveis, isto é, pessoas em condições de levar uma vida cotidiana normal, realizar os seus trabalhos, prestar os seus serviços nos respetivos empregos. São pessoas saudáveis de uma população saudável que os serviços médicos criam. Serviços médicos que são avaliados pelos mesmos critérios que regulam como esses serviços médicos cumprem essa missão, a de fornecer uma população capaz de prestar serviços nos empregos e em outros lugares.
Essa é a missão nacional que o pessoal médico cumpre e da qual se orgulha, especialmente em situações em que essa missão é desafiada por situações extraordinárias, como esta com este vírus. Nenhum médico tem quaisquer problemas morais quando as políticas de saúde que põe em prática, como a propagação controlada de um vírus, depende das suas capacidades médicas e isso inclui produzir todas as pessoas doentes e mortas previstas nessa estratégia. Não é de admirar que esta missão implique que os médicos, que têm orgulho desta missão, a apresentem, portanto, como ela é, um serviço ao seu estado nacional: „Wir sind an der Front, ganz ohne Munition. Wir müssen von jedem Patienten austhhen, dass er potentiell infizert ist. “(” Estamos na linha da frente, mas sem munições. Devemos assumir que cada paciente está potencialmente infetado.”) Expressam-se assim os médicos apaixonados pela missão de guerra ao serviço do seu estado-nação: apresentam a falta de máscaras como falta de munições numa luta nas linhas de frente de uma guerra.
Pode objetar-se que, nas circunstâncias em que não há remédio contra esse vírus, não há outra maneira de fazer senão dessa maneira, o Durchseuchung. Também é verdade que não poderiam ser testadas mais pessoas devido à falta de instalações de teste. Portanto, não é possível impedir que mais pessoas sejam infetadas. Vamos deixar de lado a questão de como é possível que as sociedades sejam capazes de fazer todo o tipo de altas tecnologias, mas no setor médico estejam reduzidas a tão pouco progresso a respeito de todas essas doenças consideradas como “Volkskrankheiten” (como com o cancro, a pressão alta, de que a maioria das pessoas morre, incluindo o stress). Admitamos como natural que haja falta de um medicamento contra esse vírus, e isso não foi o resultado de os cuidados de saúde serem tratados por sistemas se preocupam com a saúde tal como ela é organizada pelos negócios, com os seus cálculos de negócios, sem criar nenhum medicamento que não prometa lucros. Vamos supor que este surgimento do vírus é apenas um azar, quiçá até o resultado de qualquer erro de decisão em qualquer agenda de investigação sobre infeções por vírus, para que não haja remédios. Há que reconhecê-lo, erros que podem acontecer sempre.
Supondo tudo isto, das duas uma: ou se enfrentam essas coincidências ou se corrigem esses erros. As sociedades capitalistas não permitem a opção de reorganizar a vida de maneira que as pessoas não paguem o preço dos problemas com o prejuízo da sua saúde, como faz esta Durchseuchungsagenda. Reorganizar a vida da maneira que, acima de todas as prioridades, esteja a saúde das pessoas, e nada mais acima disso, essa é uma opção que as sociedades capitalistas não têm. Os critérios de decisão sobre a vida das pessoas, critérios que dão prioridade ao que seria melhor para as necessidades das pessoas, esses critérios violariam o fundamental para as sociedades capitalistas.
O que conta nestas sociedades, que vivem numa economia de mercado supervisionada pelo Estado-nação, fica muito claro se acompanharmos as decisões de fechar tudo, lojas, escolas, vida pública, etc., mas que deixar de funcionar de todo não é uma opção. Não funcionar prejudica a economia dessa sociedade capitalista e, portanto, o trabalho deve continuar, seja qual for o risco de ser infetado. E isso, a continuação do trabalho, não se aplica apenas ao trabalho que produz coisas que as pessoas precisam para viver. Isso, o trabalho que nos obriga, sem considerar os riscos de infeção, é o trabalho em qualquer sector do mundo dos negócios, independentemente do que produza e do modo como uso dos seus produtos corresponde às necessidades das pessoas. Essa sociedade não tem a opção de limitar o trabalho aos produtos necessários para a vida das pessoas, porque aquilo de que as pessoas precisam não é o critério para planear a produção de qualquer coisa que essa sociedade produz. O critério para o que qualquer coisa é produzida nas sociedades capitalistas não é se é útil para as pessoas, mas se a produção e venda de coisas resulta em mais dinheiro do que foi investido. E, para isso, é produzido qualquer coisa que se venda, e só então e somente para esse fim, para produzir mais dinheiro é que se produzem coisas. O que conta nesta sociedade é o crescimento do dinheiro e é apenas por esse motivo que qualquer empresa deve continuar, independentemente de o trabalho, a espalhar doenças entre os trabalhadores durante a guerra contra um vírus. Nas sociedades capitalistas, mais perigoso que as doenças é o perigo de prejudicar o crescimento do dinheiro dos investidores. Se esse dinheiro não crescer, de fato, nem existem os produtos que as pessoas precisam para viver. É assim que as sociedades capitalistas trabalham. É a isso que elas dão prioridade. É por isso que reduzir o trabalho ao que é necessário para as pessoas continuarem com as suas vidas, em tal situação, não é uma opção para as sociedades capitalistas. Sem a perspectiva do crescimento do dinheiro dos investidores, essa economia voltada para o crescimento do dinheiro entraria em colapso.
Não é de surpreender que desde o início da discussão pública se tenha introduzido uma discriminação entre a população. Isso tem consequências. Consequências do ponto de vista de uma guerra contra um vírus que visa garantir a produção de uma população nacional. Hoje em dia, muitos países discutem a questão de quanto tempo as sociedades conseguem lidar com os danos económicos que essa estratégia de “Durchseuchung” implica e se se não se deve pensar em distinguir a população de um país de acordo com os critérios necessários para administrar a economia. Portanto, pessoas idosas e economicamente inúteis são descritas como as principais vítimas da pandemia. O que questionado e discutido é, se essas são pessoas da parte útil da população, por não serem capazes de trabalhar, se não devem ser trancados, deixando campo mais livre para que outros voltem a trabalho. A seleção e o equilíbrio encontrados recentemente da população de um estado-nação procedem de acordo com os serviços que cada um presta à economia nacional. Para evitar danos económicos, bloqueiam-se todas as pessoas não produtivas, considerando o risco que constituem para quem trabalha. Para manter a economia a funcionar, a sociedade está a ser deve repensada: aqueles que não são necessários para qualquer trabalho, mas que, com sua vulnerabilidade se tornam um fardo para o sistema de saúde, devem ser encarados de maneira diferente e tratados de maneira mais restritiva. A ideia é deixar as pessoas úteis trabalharem e trancar as mais velhas à força. Isso, a discriminação entre os cidadãos, iguais de acordo com seus serviços para a nação, determina os idosos como uma ameaça para o sistema de saúde. Com as suas doenças, ocupam desnecessariamente um sistema de saúde que deveria estar disponível para aqueles que poderiam viver com o vírus enquanto prestam os seus serviços à nação. Essa seleção de pessoas de acordo com os serviços potencialmente prestados ao estado nacional e à economia nacional pode parecer uma visão nazi da população nacional. É-o, de fato. Mas não há nazis em toda a parte. Quem usa as palavras para fazer tais considerações políticas são políticos estatais muito normais e todo o tipo de especialista em pandemia.
“Agora, temos tudo sob controle.”

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